Desaceleração do consumo na classe média afeta economia brasileira

24/09/2014

Com a falta de incorporação de novos consumidores da classe média ao mercado, o Brasil e a América Latina deverão enfrentar crescimento econômico em ritmo mais moderado nos próximos anos, apontam especialistas. Após forte mobilidade social dos últimos anos, juros altos, inflação e endividamento reduziram o ritmo do consumo – fator preocupante para economias emergentes como a brasileira. Relatório da agência de classificação de risco Moody’s divulgado, nesta terça-feira, reforçou a tendência de estagnação da classe média e acende sinal amarelo nas economias que são impulsionadas, principalmente, pelo consumo interno das famílias.

O estudo aponta que a desaceleração no crescimento desse mercado consumidor terá impacto econômico amplo, mas deverá afetar especialmente as empresas varejistas, montadoras de automóveis, construção civil e o setor de serviços e comércio. De acordo com o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal, a previsão de impacto negativo na economia do Brasil deverá acontecer em curto prazo.

“Nós chegamos ao limite do que podemos crescer incorporando novos consumidores à economia. Nos últimos anos tivemos grande mobilidade social e a nova classe média passou a ser o grande motor do consumo interno, mas esse processo se esgotou no Brasil e na América Latina de maneira geral. O responsável por este problema é um círculo vicioso que envolve inflação, crédito escasso, desemprego e renda baixa”, explica o economista, para quem a volta do crescimento econômico sustentável no Brasil deve vir do aumento e da distribuição de renda, além de investimentos estruturais em educação, trabalho e produtividade do capital com maior abertura da economia.

No Brasil, embora a perspectiva de longo prazo apontada pelo relatório para a classe média permaneça positiva, o sentimento entre os consumidores e investidores piorou significativamente nos últimos três anos. A agência projeta que o Brasil cresça 0,7% neste ano e até 1% no ano que vem. Ritmo bem inferior ao registrado entre 2004 e 2013, de alta de 3,7%. Segundo aponta a Moody’s, o crescimento econômico conduzido pelo consumo alcançou um ponto de exaustão. “O modelo brasileiro atual para crescimento da economia se esgotou. O aumento na renda perdeu fôlego e a população, obviamente, se endividou e freou o consumo”, afirma Leal.

De acordo com a Moody's, os setores relacionados à indústria sofrerão grande impacto no Brasil, além de a mobilidade social - destaque do país na última década. Para o economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) André Braz, os sinais de enfraquecimento já apareceram e é necessário que o país mude o foco da expansão econômica.

“O PIB brasileiro dá sinais notórios de enfraquecimento, o que já pode ser um reflexo da estagnação do consumo interno. Isso porque os últimos anos foram pautados no consumo da classe C que, cautelosa, já começa a poupar e comprar menos com os sinais de fraqueza da economia e possibilidade de desemprego. Nesse cenário, temos pouco espaço para crescer baseado no consumo e a estratégia precisa mudar. Além do crédito, a infraestrutura e a indústria precisam estar no foco das atenções do governo.” alerta.

América Latina

Apontados pela Moody's, os fatores que levarão à desaceleração das economias são diferentes em cada país. No Brasil, o estudo apontou como destaque as altas taxas de juros e o alto endividamento das famílias. Já na vizinha Argentina, a “inflação descontrolada” e a “forte recessão” serão responsáveis pela queda. Até nos países onde há previsão de alta na economia, a expectativa é que o crescimento não seja mais tão influenciado pelo consumo das famílias. A Moody’s projeta ainda que a expansão no Brasil, na Argentina, no Chile e no Peru deverá cair abaixo da taxa média de crescimento registrada durante o período de 2004 a 2013.

“No México, o mais provável é que o crescimento seja puxado pelos gastos do governo e estímulo para uma economia mais dinâmica. No Peru, gastos do governo e investimentos em mineração vão guiar o crescimento, enquanto na Colômbia, gastos em infraestrutura devem ajudar a economia a sustentar o ritmo de crescimento”, destaca a agência.

Fonte: Site Brasil Econômico