Participação do jovem no mercado de trabalho é a menor em 12 anos

17/10/2014

A participação dos jovens no mercado de trabalho é a menor desde o início deste século. Segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo IBGE em setembro, pouco menos de 16 milhões de brasileiros com 18 a 24 anos estavam trabalhando ou procurando emprego em 2013, o equivalente a 70,4% da população dessa faixa etária. É a menor proporção desde 2001, quando a Pnad passou a divulgar esse dado.

O encolhimento da mão de obra jovem, que ocorre desde a segunda metade da década passada e ajuda a manter as taxas de desemprego relativamente baixas, deve influenciar o mercado de trabalho e o próprio desenvolvimento do país. Ainda não se sabe se os efeitos serão mais positivos ou negativos; isso dependerá das causas que estão por trás do movimento, ainda um tanto controversas.

É fato que, com o Brasil em plena transição demográfica, a população mais nova está diminuindo. Mas a saída desse público do mercado de trabalho é bem mais acelerada. Em 2008, 75% dos jovens estavam ocupados ou em busca de trabalho; desde então, o índice caiu quase cinco pontos porcentuais.

No ano passado, a população dessa faixa etária diminuiu em 82 mil pessoas, segundo a Pnad. Ao mesmo tempo, 335 mil deixaram a população economicamente ativa. A diferença, de 253 mil, representa o número de jovens que efetivamente largaram o emprego ou pararam de procurar um.

Explicação

Duas hipóteses são levantadas para explicar o fenômeno, uma boa e uma ruim. A primeira é que, com o aumento da renda dos pais, os filhos puderam sair do emprego e se dedicar só aos estudos. A segunda é que a turma que abandonou o mercado de trabalho – ou nem chegou a entrar nele – estaria engrossando o grupo dos que não trabalham nem estudam, também conhecidos por “nem-nem”. Eles eram 23,4% da população com 18 a 24 anos em 2012, segundo o último informe do IBGE sobre o assunto.

O mais provável é que esteja ocorrendo um pouco de cada, com alguma preponderância da primeira hipótese. “O número de jovens ‘nem-nem’ ficou mais ou menos constante nos últimos 12 anos. E diminuiu o grupo dos que simultaneamente estudam e trabalham, com muita gente passando a apenas estudar”, diz Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Mas, para ele, o fato de haver mais jovens concentrados nos estudos não significa que nos próximos anos o mercado de trabalho receberá uma enxurrada de profissionais altamente qualificados, capazes de elevar substancialmente a produtividade da economia brasileira, praticamente estagnada há alguns anos.

“A qualidade do ensino no Brasil é muito baixa, e também não acredito que os jovens usem o tempo em que trabalhavam para estudar mais. Provavelmente vão dedicá-lo ao lazer”, avalia Menezes Filho. “E não estamos falando de jovens ingressando ou permanecendo na faculdade. A grande maioria está atrasada, no ensino fundamental ou médio.”

O economista Raul Luís Assumpção Bastos, da Fundação de Economia e Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul, até espera uma melhora da produtividade com o maior nível de educação formal dos futuros trabalhadores, mas pondera que só isso não basta. “A produtividade não depende só disso. Também depende, e muito, de mais investimentos privados, em máquinas e equipamentos, e públicos, em infraestrutura. E o Brasil não tem conseguido investir mais.”

Mão de obra exigente

Quem mora com os pais quer salário mais alto.

Os jovens demoram cada vez mais para deixar a casa dos pais. Esse fenômeno – observado no Brasil e em boa parte do mundo – pode estar ampliando a permanência dessas pessoas nos bancos da escola e, por outro lado, reduzindo sua participação no mercado de trabalho.
“Como os pais estão mais tolerantes e aceitando o filho em casa por mais tempo, sem pressioná-lo a complementar a renda familiar, o jovem não precisa aceitar qualquer salário para entrar no mercado de trabalho. O menor salário aceito tem crescido conforme as gerações, e conforme a família enriquece”, diz Daniel Domingues dos Santos, professor de Economia da USP em Ribeirão Preto.

O economista Raul Luís Assumpção Bastos, que coordena a Pesquisa de Emprego e Desemprego da FEE na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), observa que a decisão do jovem depende muito do que ocorre com o chamado “chefe de domicílio” – e, no geral, a situação deste melhorou desde o início da década passada, com o aumento da renda e a queda no desemprego.

“No ano passado, a taxa média de desemprego na RMPA foi de 6,4%. A dos chefes de domicílio, de apenas 3,5%”, diz Bastos. “Em conjunto com o aumento da renda, isso dá mais condição aos jovens de se dedicarem só aos estudos. Tanto é assim que, em 1993, tínhamos 14,6% dos jovens de 16 a 24 anos da RMPA somente estudando. Essa proporção chegou a 18,5% em 2003, e em 2013 alcançou 23,9%.

Itaú vê sucesso do Fies e aposta em aumento da produtividade

Os economistas Aurélio Bicalho e Luka Barbosa, do banco Itaú, publicaram em março um artigo com a avaliação de que os jovens de 18 a 24 anos que deixam o mercado de trabalho estão, em sua maioria, se dedicando mais aos estudos – em especial, ao ensino superior, graças à ampliação do programa de financiamento estudantil, o Fies.

Os dois se basearam em dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também do IBGE, que retrata o que ocorre em seis grandes regiões metropolitanas. É uma pesquisa menos abrangente que a Pnad, que busca refletir a realidade de todo o país.

“Existem, sim, os jovens que não estudam nem trabalham. Mas a principal razão para a queda na participação no mercado de trabalho é que muitos foram estudar. O aumento do número de matrículas via Fies é estatisticamente significativo para explicar esse movimento”, diz Barbosa. “É algo que pode ser benéfico para o futuro. Com mais estudo, podemos esperar mais produtividade do trabalhador e da economia brasileira.”

A adesão ao Fies cresceu muito a partir de 2010, quando o prazo de pagamento foi ampliado e a taxa de juros despencou de 9% para 2,4% ao ano. O número de matrículas no programa, que até 2009 girava em torno de 50 mil por ano, passou de 550 mil no ano passado. O crédito mais fácil ajuda a explicar por que o número de brasileiros cursando faculdade saltou de 3,9 milhões para 7,3 milhões em dez anos.

Nem tão jovem

Boa parte dos matriculados no Fies, no entanto, não é tão jovem. A Pnad mostra que o número de pessoas com 18 a 24 anos nas salas de aula – de ensino fundamental, médio ou superior – aumentou nos últimos dois anos, chegando a 6,8 milhões. É menos, no entanto, que em 2007 (7,4 milhões). Em termos relativos, a proporção de jovens dessa faixa etária que estão estudando era de 30% no ano passado, pouco abaixo da observada seis anos antes (30,8%).

Fonte: Site Gazeta do Povo